Davi Wood
Este ensaio é um esforço intelectual para propor um budismo mahayana coerente com as concepções pós-modernas de Ciência e Filosofia ocidentais, bem como defender a interdependência entre filosofia, ciência e religiosidade para a realização humana plena.
A pós-modernidade foi influenciada imensamente pelas obras do segundo Wittgenstein, como as “Investigações Filosóficas”, bem como pelas de Quine, como o seu artigo sobre “Os Dois Dogmas do Empirismo” dentre outros. Esta condição pós-moderna é marcada principalmente pela morte de toda metafísica, como também, da tentativa de fundamentação epistemológica do conhecimento, sendo as demais características a ela atribuídas, geralmente redundantes ou meras conseqüências dessas duas novas concepções principais. Neste contexto, ainda é possível alguma religiosidade de cunho budista de orientação mahayanista? Sim, ela é possível. Vejamos então como.
O budismo mahayana professa a chamada Teoria das Duas Verdades, a saber: que o mundo em que vivemos, chamado de samsara, se constitui em uma verdade relativa, é um mundo de aparências, frutos do nosso próprio pensamento, mas de todo modo um engano. Nosso objetivo espiritual seria exatamente nos despertar do nosso engano, ou seja, atingirmos a Iluminação. A Iluminação consistiria em nos re-ligarmos com a verdade absoluta, chamada de nirvana, com a realidade como ela realmente é, na qual, segundo o budismo mahayana, cessariam todas as dualidades (aparentes) do samsara. Ora, como se pode ver essa visão de mundo é uma versão tipicamente Moderna, pois pressupõe um sujeito do conhecimento, mesmo que vazio de existência inerente, o qual representa a realidade objetiva (absoluta) por meio de seu pensamento. Essa representação pode ser enganosa (samsara) ou parafraseando Rorty, um fiel “espelho da realidade” (nirvana). Assim, o budismo mahayana abraça um monismo idealista (outra postura típica da filosofia moderna) e continua preso ao conceito de representação da realidade.
Podemos afirmar que todas as questões discutidas daqui por diante são decorrentes dessa pressuposição moderna apresentada anteriormente.
Baseado na concepção pós-moderna, o discurso científico não é mais visto como uma leitura privilegiada e especular do mundo, mas sim como mais um dentre tantos outros discursos, entretanto com uma ressalva: se quisermos prever e controlar os fenômenos naturais é o discurso científico, mais do que qualquer outro que nos fará ter sucesso. Proponho então, que a Ciência ou no mínimo uma proto-ciência seja necessária, mas não suficiente, para atingirmos a Iluminação. Como diria Allan Wallace, pensador budista, sem roupas, um teto, remédios e comida (e eu acrescentaria, sem convívio social) é muito difícil ser feliz. Essa colocação de Wallace mostra que precisamos eliminar ou ao menos atenuar as fontes primárias de sofrimento que incidem sobre nós. Portanto, primeiro precisamos sanar nossas necessidades filo-ontogenéticas e culturais elementares, como reforçadores primários, secundários e generalizados, mesmo que por meio de uma teoria-técnica rudimentar no passado, para só então, se as contingências de nossa vida assim permitirem, pensarmos em outra coisa como nos chamados “problemas filosóficos”.
A filosofia começa, segundo Rorty, como uma tentativa de se escapar para um mundo onde tudo jamais mudaria. Aqui não temos nenhum problema, pois o grande mal estar trazido pela filosofia contemporânea, o reconhecimento da transitoriedade, já é velho conhecido do budismo em todas as suas variantes.
A filosofia ocidental chegou até nossos dias, com raras exceções como Heráclito, exatamente com o mesmo ideal platônico com o qual começou, a saber: escapar da transitoriedade do mundo. Junto com esse ideal também vieram todos os chamados “problemas filosóficos”. Segundo Wittgenstein, sentimos que mesmo que todos os problemas científicos fossem solucionados, as questões mais importantes das nossas vidas não teriam sido nem ao menos tocadas. Leia-se: os ‘problemas filosóficos’ não residem nos problemas científicos nem nas possíveis soluções que a ciência possa oferecer para o mundo natural. Relembrando: a ciência é o meio, o instrumental, para operarmos no mundo físico e social com sucesso com o fim de atingirmos a Iluminação.
Mas se os ‘problemas filosóficos’ não residem e nem serão respondidos jamais pela ciência, de onde eles vêm? De acordo com Wittgenstein eles são um problema lingüístico, mais precisamente gramatical. Isso explica a ausência de progresso em filosofia, ou seja, do fato dos mesmos problemas que atormentavam os gregos ainda nos darem dor de cabeça. Wittgenstein propõe então, que os “problemas filosóficos” surgem de uma má compreensão do funcionamento da linguagem, ou em termos analítico-comportamentais, da não compreensão da funcionalidade do Comportamento Verbal.
Wittgenstein propõe então que a filosofia possa ser entendida como uma terapia da linguagem, com função meramente descritiva. Eis um ponto importante. Proponho aqui que parte do conceito de auto-cura do budismo mahayana seja interpretado exatamente como um processo de se desfazer do feitiço produzido pela linguagem sobre a nossa forma de pensar, nos levando sempre para as mesmas pseudo-questões metafísicas sem solução. Essa terapia da linguagem atenua nossa ignorância de certas verdades básicas do budismo como a verdade sobre a vacuidade do ser e do não ser, a impermanência (ou não metafísica) e a interdependência. Todas essas “verdades” o são, apenas em sentido Pragmático. Mas essas verdades não seriam então relativas? Não. Elas só são percebidas como relativas, tomando de empréstimo o argumento de Rorty, em contraste ao velho paradigma da filosofia moderna. Não cabe mais a distinção entre absoluto e relativo, objetivo e subjetivo, aparência e essência, etc. Assim, é exatamente por meio dessa terapia lingüístico-gramatical que devemos nos libertar dos nossos enganos, de todas as pseudo-dualidades metafísicas (embora no budismo elas só existam para aqueles que estão no samsara, o qual para nós, corresponde em parte, ao mau entendimento sobre a funcionalidade do Comportamento Verbal). Desse modo, percebendo que os “problemas filosóficos” são na verdade menos dolorosos se encarados como pseudo-problemas gramaticais para os quais sempre se forneceram pseudo-soluções, e que a terapia gramatical deve ser contínua até a dissolução desses “castelos de ar” estaremos nos libertando da segunda fonte de sofrimento que incide sobre nós.
Para que o nosso tripé da Iluminação esteja completo precisamos focar a religiosidade. Como vimos o samsara consiste, dentro da interpretação pós-moderna do budismo mahayana aqui proposta, de: a) falta de meios efetivos para se desapegar, prever e controlar o mundo (domínio de uma ciência e suas técnicas), pois no samsara tudo depende de causas e condições para ocorrer (ou pela análise do comportamento, de contingências); b) do engano lingüístico-gramatical que dá origem aos pseudo-problemas filosóficos, dentre eles o problema existencial da finitude e; c) o dilema ético ou religioso do sentido da vida decorrente do problema existencial da finitude. Aqui, como em Wittgenstein, religiosidade e ética coincidem. Supondo então que tendo um homem aprendido a prever e controlar o seu mundo físico e social, criando as devidas condições para que também conseguisse dissolver todos os falsos ‘problemas filosóficos’ não teria ele alcançado a Iluminação? Não. Isso porque o instrumental da ciência e a dissolução dos ‘problemas filosóficos’ ainda não impedem que ele viva no passado (se lamentando, recordando, etc.) e/ou no futuro (fazendo planos, se preocupando, etc.).
Em “O Mito de Sísifo” Albert Camus nos diz que o Homem se sente no mundo, mas não do mundo, condição a qual ele denomina de absurdo. O absurdo camusiano, ilustrado pela condição cíclica e desprovida de sentido pré-estabelecido de Sísifo é um retrato do samsara. E aqui chegamos a um ponto crucial. Mesmo tendo solucionado os problemas científicos e dissolvido os problemas filosóficos que o afligiam o nosso Homem ainda não aprendeu a viver no momento presente! É tão somente por isso que o problema ético do sentido da sua vida ainda se coloca, e, portanto, o atormenta. O problema do sentido da vida, qualificado por Camus como a mais premente das questões, a meu ver, não passa de um pseudo-problema, um engano (mais um!), que deve ser dissolvido, caso queiramos alcançar a Iluminação. Aqui eu ousaria me perguntar: no que consistiria o Nirvana então? O Nirvana consiste em um estado de total contentamento, de completa congruência entre o que eu espero do mundo e o que o mundo pode me dar. Para haver essa total congruência é preciso que todos os problemas científicos pertinentes a essa questão tenham sido solucionados, e que todos os ‘problemas filosóficos’ e éticos pelo sentido da minha vida tenham sido dissolvidos. Quando todas essas três condições são não só entendidas pela descrição das contingências, mas principalmente, vivenciadas pela exposição direta as contingências que as “traduzem as avessas” pode haver a Iluminação. Perceba que não há uma receita pronta para a Iluminação. Estou apenas salientando certas contingências razoavelmente estáveis em nossa cultura. A Iluminação aparece então como um ideal pragmático-ético-religioso prescrito a ser alcançado, mas exatamente quais contingências deverão ser manejadas para se atingir tal objetivo na vida de cada pessoa, é algo altamente idiossincrático, sendo este ensaio apenas um norte. Assim sendo, a Iluminação ou Nirvana não será nunca uma vivencia de caráter universal, mas apenas aproximado, semelhante ao fenômeno da consciência.
No Nirvana, o novo mundo que ativamente construímos é não contraditório, onde não há nenhum tipo de insatisfação e também não existe nenhum dilema ético-religioso pelo sentido da nossa vida. As descrições do budismo sobre o Nirvana como sendo um estado permanente, podem ser relidas numa era pós-moderna e numa linguagem analítico-comportamental, como significando não recaída no samsara, prontidão, consistência e constância no responder. Além disso, no Nirvana conseguiríamos não resistir à contingência alguma, a mudar continuamente, e logo, nessa condição não haveria mais mudança para nós, e consequentemente insatisfação, simplesmente porque ela não seria mais percebida, pelo mesmo motivo físico que não nos faz perceber o movimento da Terra, visto que nos movemos junto com ela.
Quanto ao ideal do bodhisattva, típico do budismo mahayana, este pode ser interpretado como aquele que não consegue dissolver um último dilema ético-religioso, a saber: sobre o sentido da vida dos demais seres, pois esses ainda estão atormentados com essa e outras questões. Vale ressaltar que alguém será atormentado pelo sentido da vida alheio apenas se as contingências idiossincráticas de sua própria vida o levar a isso.
Finalizando, quando alcançarmos a Iluminação, aceitando o mundo sem acréscimos ou subtrações como diria Nietzsche, através do tripé ciência, filosofia e religiosidade, estaremos em um novo mundo, criado por nós, sem insatisfação alguma, onde poderemos apenas brincar de criar experiências e assim solucionar os infindáveis problemas das ciências.

